Saudades do aconchego da mãe

Desde cedo conheci a força e a grandiosidade de uma mulher dentro da minha própria casa. Mãe de 6 filhos, dona Ivete se virava como podia para sustentar sua prole.

Trabalhava de copeira em um hotel da cidade, fazia plantão, pegava o “madrugueiro”e trazia para  casa queijo, presunto e polpa de suco do hotel. Fazia conta a fiado na mercearia da esquina para poder pagar quando recebesse o salário.

Quando acabava o gás de cozinha e não tinha dinheiro para repor, colocava fogo no óleo que queimava em cima das antigas tampas de alumínio do Nescau em pó, dessa forma conseguia esquentar a comida.

Eu adorava fuçar a bolsa dela assim que chegava em casa pois tinha certeza que encontraria balas de hortelã.

De tão difícil que era a situação, fui morar aos 7 anos com minha irmã mais velha mas lembro-me que nos primeiros dias chorava escondido sempre antes de dormir, sentia falta do aconchego da dona Ivete.

Na adolescência a rejeitei algumas vezes, inclusive disse palavras rudes a qual me referi que ela não era minha mãe, que tinha me abandonado. Já na juventude quando o mundo parecia estar contra mim, ela foi umas das únicas a me acolher e, neste momento, a vida me jogou na cara todo o significado da palavra mãe.

Talvez ela não fosse muito boa com conselhos mas ela tinha um coração enorme, era capaz de deixar sua tranquilidade de lado para o bem de um filho.

Dona Ivete não tinha estudo, mas tinha sabedoria e criatividade, sabia contar histórias. Ah suas histórias… que saudades que eu tenho…

Um dia, me lembro de ter assistido um filme com ela que se passava no Vietnã. Era época do video cassete ainda e o filme era legendado. Ela não estava conseguindo ler a legenda mas continuava assistindo pois segundo ela, as imagens eram tão lindas que valia a pena assistir mesmo assim e comentou que seria bom se um dia pudéssemos conhecer o país.

Depois de um mês, me despeço do Vietnã no dia 08/05/2016, dia das mães, pouco mais de dois anos após minha mãe partir.

Não pude compartilhar minha experiência com ela de nenhuma forma falada ou vivida, mas em cada souvenir, em cada paisagem, em cada pessoa lembrei-me dela, de sua alegria, das suas risadas e do seu jeito. E pensei no quanto ela ficaria feliz de saber de tudo isso.

Saudades da Dona Ivete.

 

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Author: Nany Goes

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