O que você sabe sobre o Laos?

Muitas pessoas não sabem quase nada sobre esse país do sudeste asiático, e eu era uma delas. Estávamos em Chiang Mai, na Tailândia, quando vislumbramos a possibilidade de percorrer mais alguns quilômetros ao norte e cruzar a fronteira para conhecer o país vizinho. Atraídas pelo fato de ser bem menos turístico do que a Tailândia, apesar de mais caro, resolvemos incluir o Laos no nosso roteiro. Embarcamos num barco e navegamos por dois dias ao longo do rio Mekong, um dos maiores do mundo, até chegar à tranquila cidade de Luang Prabang.

IMG_6340.jpgVista da cidade de Luang Prabang do alto do Monte Phousi. 

Já no percurso ao longo do rio passamos por alguns vilarejos e tivemos uma ideia da pobreza que assola o Laos, que tem IDH considerado médio ocupando a 141ª posição no ranking mundial de 188 países. Um cenário que nos fez refletir sobre uma história marcada por envolvimento em guerras, bombardeios, conflitos e problemas climáticos.

Com uma economia pouco desenvolvida, muita ajuda internacional, estradas precárias em meio há um relevo montanhoso e a maior parte da população vivendo em pequenos vilarejos nas áreas rurais, no Laos nos encantamos com um povo de sorriso tímido e com a simplicidade que rege o país dono de uma natureza exuberante.  As famosas cachoeiras de águas claras de Kuang Si nos dão uma ideia de tamanha beleza.

12651216_10206876695850364_5939799295317016508_nAs cachoeiras de Kuang Si são parada obrigatória na região de Luang Prabang.

IMG_6953.jpgNo calor de quase 40º C, não deu pra resistir ao banho gelado de cachoeira.

Luang Prabang é uma cidade de ar interiorano considerada Patrimônio Mundial segundo a Unesco com uma arquitetura influenciada pelo estilo francês do período colonial. Andando por suas ruas logo nos deparamos com seus casarões charmosos e também com as várias bandeirinhas vermelhas da foice e do martelo – símbolo do comunismo. A própria denominação oficial do país, República Democrática Popular do Laos e os alto-falantes presentes na principal avenida da cidade não escondem a dominação do partido comunista sobre a vida política do país. O Laos é um país de um só partido.

IMG_6014.jpgLuang Prabang é considerada patrimônio mundial segundo a Unesco. 

Poucas pessoas falam o inglês de modo que tive dificuldade de estabelecer um diálogo com os moradores para saber mais sobre a realidade que vivem. Por acaso conheci uma inglesa que há mais de um ano vive em uma das vilas nos arredores de Luang Prabang, trabalhando como voluntária e ensinando inglês.

Sandra contou que a população não tem acesso gratuito aos serviços básicos como saúde e educação e que a corrupção corre solta, sendo fácil de notar por exemplo oficiais cobrando propina dos motoristas que, em sua grande maioria, não possuem documentos para transitar com as motocicletas que dominam as ruas. Ela também falou da alegria de ensinar as crianças e os adolescentes, muito educados e ávidos por conhecimento.

Além disso, visitamos os mercados de Luang Prabang que muito nos dizem sobre a cultura e dia a dia no Laos. No tradicional mercado noturno, encontramos muitas tecelagens típicas e outros produtos artesanais como os potes feitos de bambu para armazenar o tradicional arroz pegajoso que nesse país é comido com as mãos – o chamado “sticky rice”. Pela manhã, andamos pelo mercado local diurno onde se comercializam principalmente alimentos: Arroz, frutas, verduras, legumes, carnes e animais. Galinhas, patos, peixes, porquinhos da índia, sapos, pássaros, cobras e até ratos.

IMG_7603Visitar o mercado diurno de Luang Prabang é uma experiência cultural enriquecedora. 

Apesar das diferenças culturais, o mal estar foi inevitável ao ver uma mãe com um bebê no colo escolhendo um rato na feira ou uma senhora com uma carne nãos mãos que não quis acreditar ser de cachorro. Tudo isso me sensibilizou e só aumentou minha inclinação para o vegetarianismo, cada vez mais frequente nas minhas escolhas alimentares. De qualquer forma, foi muito interessante perceber que lá as pessoas ainda compram os produtos básicos trazidos diretamente dos pequenos produtores e não em prateleiras de supermercados.

Experimentamos pratos típicos do país como as iscas de carne seca de búfalo com sementes de gergelim  e um outro prato em que se enrolam alguns ingredientes numa folha verde incluindo pasta de berinjela, noodle de arroz, amendoim e um molho agridoce tradicional chamado jeow.

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Achamos que a culinária laociana se parece com a tailandesa, com muitas sopas e legumes porém bem menos apimentada. Por outro lado, alguns pratos são bastante aromáticos e estranhos ao nosso paladar ocidental.

O que também chama a atenção são as pessoas comendo sob esteiras sentadas no chão e apoiando os alimentos em pequenas mesas, uma cena comum no cotidiano de Luang Prabang. Diferente da Tailândia, aqui também encontramos pães e baguetes sendo vendidos em todas as esquinas, legado da França que combina bem com o saboroso e famoso café do Laos.

Outro ponto marcante em Luang Prabang é a presença de seus monges em templos e ruas da cidade. Sim, o Laos é alaranjado. Eles estão por todos os cantos. Talvez pelo fato de ser um país tão pobre e essa ser muitas vezes a única chance de uma criança ter a oportunidade de adquirir uma boa educação, como me relatou um monge.

Num dos casarões da cidade também tivemos a grata surpresa de conferir uma exposição fotográfica sobre meditação em Luang Prabang, com imagens do fotógrafo Hans George Berger, que tem um belo trabalho documental no Laos.

A cerimônia da Ronda das Almas, que acontece todas as manhãs quando os monges saem descalços pelas ruas para receber comida oferecida pela população local, já virou atração turística. Mesmo assim, conserva a pureza da tradição e foi lindo de presenciar o ritual que simboliza a generosidade e humildade no budismo.  Mais que isso foi despertar várias vezes as 4h da manhã com os sons das batidas dos bumbos e ainda, num dia qualquer, poder acompanhar monges entoando cânticos dentro de um templo. Uma cena e um som que ficarão para sempre na memória.

IMG_7352Monges de diferentes idades entoando cânticos dentro de um dos templos da cidade.

Continuo sabendo pouco sobre o Laos e agora querendo estudar para saber mais. De qualquer forma, nessa breve passagem de 10 dias por Luang Prabang, pedalando por suas ruelas, visitando vilarejos em seus arredores, apreciando o sol se pôr à beira do Mekong, conhecendo seus templos, mercados e me contagiando com a calma de seus monges; descobri um lugar em que a vida passa em outro ritmo – menos frenético mas fluido, assim como as águas do rio Mekong.

IMG_7671.jpgCenas do Rio Mekong, um dos maiores e mais importantes rios do mundo. 

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Author: Aline Presa

Jornalista, filmmaker e fotógrafa. Minha paz encontro na natureza, minha paixão em viagens, culturas e lugares e minha inspiração nas histórias das pessoas.

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